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“Deixa a menina sambar em paz!”

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014



Estava um dia conversando com dois amigos (homens, heteros, brancos, magros, sulistas, cristãos e é bom que se diga que eles não sabem, nem de longe, o que é sofrer preconceito) e observávamos as pessoas na rua. Em um determinado momento, nos deparamos com dois casais de lésbicas. Um com duas mulheres bem femininas e de aparência delicada. O outro, de duas mulheres com vestes mais masculinas, gordinhas, nada delicadas. Os dois casais pareciam, a meu ver, se amar muito ou, pelo menos, conservar um carinho mutuo. Essa foi a MINHA percepção da situação. Já a deles…


Os comentários feitos ao primeiro casal eram “Nossa, que desperdício duas gostosas dessas ai se amassando e a gente aqui sem nenhuma!”, ou “Que delícia, hein? Imagina eu com essas duas numa cama? Fico de pau duro só de pensar!”. No entanto, para o outro casal os dizeres foram “Que nojo! Tira essas sapatas daqui!” ou “Que coisa horrível! Elas querem ser homens com esse jeitão de machonas? Pra que se vestir assim? Porque não se alistam ao exército igual a nós?”. Fiquei perplexa e extremamente chateada com todos os comentários. Isso gerou uma briga e eles tiveram que me ouvir durante todo o caminho de volta no trem. Talvez eles não sejam mais tão meus amigos assim, mas o ponto é outro. Cheguei a algumas conclusões após este episódio:


A primeira é que, que merda, o machismo está cada dia pior! A cada um passo para frente, são dois passos para trás. Todas as lutas feitas pelo respeito as mulheres é só o começo, mudar estas mentes horrendas e machistas é que é o maior desafio. A segunda é que, quer dizer então que duas mulheres bonitas e femininas podem ser lésbicas, mas não porque a lesbofobia acabou e elas podem fazer o que quiserem das próprias vaginas, mas sim porque elas, por serem “gostosas”, podem satisfazer as fantasias sexuais dos machos alfa, se namorando. A terceira é que duas lésbicas que não obedecem os padrões de beleza impostos pela sociedade machista e patriarcal que vivemos, devem ser queimadas na fogueira, escondidas, devem ter vergonha de ser assim, porque a bíblia, o papa, a tv e o pai deles disse que mulher tem que gostar de rosa, usar vestido e gostar de homem. Essa última parte serve para todas, até para as gostosas. Gostar de homem, ou melhor dizendo, gostar de pênis.


Indo no cerne da questão, o machismo binarizou os gêneros e, pior que isso, separou as mulheres em sexualmente desejáveis e feias solteironas. E, o mais importante, decidiu que todas precisam de pinto. Cansei de ouvir as vomitáveis frases que soam como “Tá de mal humor? Isso aí é falta de levar um...(utilize a palavra que você quiser para caracterizar pênis)”. Segundo os homens, nós só podemos ser assim, é disso que precisamos para alcançar a felicidade e fazer cara bonita. Se por acaso eu sou uma mulher feminina, mas não quero o instrumento fálico dele, e mais do que isso, desejo uma mulher, não me comeram direito e isso é um desperdício. No entanto, se sou uma mulher que não gosta de vestidos nem maquiagens e prefere se vestir como homens, e que é (ou não!) lésbica, sou uma aberração da natureza, ou sofri abuso sexual quando criança, ou não tive uma referência de mãe em minha vida. OI?


As lésbicas podem simplismente ser lésbicas. Elas podem se descobrir homossexuais porque deu vontade, porque nasceram assim. Estas mulheres não servem para satisfazer o desejo de homens inseguros e limitados. Elas não estão ai porque tem traumas, porque não sabem ser femininas ou porque nunca encontraram um “homem de verdade”. Elas somente são. E deixem elas serem!


Falo isso não como protagonista desta luta, pois sou heterosexual, mas como mulher que luta todos os dias para que todas as mulheres sejam livres para ser o que quiserem, fazer o que quiserem, sentir o que quiserem. Que nossas escolhas e naturezas não sejam entendidas como resultado de uma submissão a vontade masculina. Que ninguém se sinta no direito de dizer o que temos que fazer com nossos corpos. Liberdade para nós!


Patrícia Toni Firmino
Jornalista e inquieta

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