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Até Tu?

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

A maioria dos homofóbicos que eu conheço vê minha sexualidade como uma insígnia moral: gays são promíscuos, fúteis, transmissores de doenças, depravados e querem o fim da família brasileira (sendo esta a minha acusação predileta). Mas, claro, se você acessa esse blog você já sabe o que os homofóbicos pensam de nós.Por alguns anos, eu realmente achei que minha sexualidade falasse algo da minha moral. Não, não do jeito que os homofóbicos pensam, mas eu sempre achei que ela me fizesse uma pessoa melhor. Explico minha lógica juvenil: eu sou gay – e na escala Ritcher da homossexualidade, estou mais perto do extremo Pintosa do que que do extremo Ativão Discreto do Futebol, o que aumenta minha visibilidade – e, por ser gay, automaticamente sofro preconceito. E, por sofrer preconceito, sou menos suscetível a ser preconceituoso.

Faz todo o sentido, não? Pessoas que sofrem discriminação exercitam, em tese, sua empatia e, por entender o mal que o preconceito causa, seriam menos propensas a ser preconceituosos escrotos.

Em tese.

Pena que as coisas não funcionam desse modo: de certo modo, todos somos preconceituosos. Não estou falando daquela coisa criminosa, violenta e triste que nos vem à mente sempre que pensamos em preconceito. Falo daquela outra coisa, que passa desapercebida, que cometemos na roda de amigos entre cochichos e risinhos, ou daquele pensamento que corre nossas sinapses meio que inconscientemente.

(Fonte Blog ComArte)

Vou falar só desses pecadilhos cometidos por nós, gays. E falo, pra não perder o posto de conhecedor de causa, de situações que eu ou meus amigxs vivemos, seja no papel de ofendidx ou ofensxr.

Falo daquela vez em que fomos machistas e chamamos aquela garota de quem não gostamos de puta. Ou quando chamamos alguém de baiano (estou falando com vocês, paulistas) ou de paraíba (é com vocês, cariocas). Ou quando queremos ofender um hétero e chamamos ele de viado. Ou quando chamamos, pejorativamente, alguém de pintosa – válido também pra quem escreve “não sou e não curto afeminados” no aplicativo de pegação.  Ou quando chamamos, pejorativamente, alguém de passiva (trívia: uma vez eu dei toco num ativo que estava louco pra me pegar e ele, ofendido, me xingou de passiva. Coerência, apenas coerência). Ou quando usamos qualquer um daqueles palavrões machistas/homofóbicos que aprendemos no colégio.  Ou quando esculhambamos alguém por estar fora do padrão de beleza/idade vigente.  Ou quando esculhambamos alguém pela situação financeira delx.  Ou quando viramos a cara automaticamente pra alguém que é evangélico.

Sim, sim, eu sei. Meus exemplos estão sendo pueris e meu argumento está sendo infantil. Mas meu ponto permanece: todos nós, que sofremos discriminação, também discriminamos.  E é isso que eu acho, no mínimo, bizarro. Se nós sabemos, por cicatrizes, quão escroto é sermos julgados e coisificados por um único aspecto do nosso todo, como podemos continuar com esse ciclo de violência? Como podemos ser, às vezes, machistas, bairristas, homofóbicos, elitistas... enfim, escrotos?

Quão coerente é nossa luta por igualdade, integração e aceitação se nós às vezes caímos na esparrela dos nossos demônios internos? Atualmente, não acho mais que minha sexualidade seja um insígnia de coisa alguma.  Mas ainda a entendo como uma responsabilidade.  É tipo o prefácio de Ensaio Sobre a Cegueira: se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.  Entendemos, por não podermos andar de mão dada com nosxs namoradxs sem recebermos olhares atravessados, por recebermos diariamente notícias de outros gays que apanharam na rua, por lermos sobre pessoas que se matam pela falta de aceitação de familiares, pela luta de direitos que é vista como futilidade ou fanfarronice por alguns, o quão terrível é sermos discriminados. Se sabemos dos horrores disso, não é nossa responsabilidade não perpetuar esse ciclo de violência?

                                            (Retirado da Página do Facebook Não aguento quanto)

Nossa luta por igualdade e aceitação deve ocorrer nos campos do macro e do micro. Devemos fazer passeatas, abaixo-assinados, votar em representantes decentes, lutar contra o que está errado e bater de frente sempre. Sempre! Mas também devemos nos policiar, pra não sermos como aqueles que nos apontam o dedo.

Chamar o hétero de viado pra ofender, falar que bi é só um indeciso, ser machista, fazer piada racista, fazer coro pro modelo de beleza, riqueza e juventude vigente, endeusar e se intitular “discreto”, tudo isso – você já sabe, mas é bom repetir – só dá lastro pra essa sociedade preconceituosa e cretina continuar sendo preconceituosa e cretina.


Podemos ver. Devemos reparar. 

Fernando Pivoto, ator e arte educador.

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