No mundo globalizado, o capitalismo não encontra fronteiras.
De norte a sul, de leste a oeste, temos no mundo ideais e valores empregados,
implantados e consolidados com interesses comuns, nos empurrando a viver a
sombra e a margem de uma só hegemonia, de um só jeito de viver, de andar, de
comer, de transar, de dançar e, até mesmo, de amar.
Todo e qualquer movimento que destoa, todo ritmo, toda batucada que não está na
cartilha, que não segue as regras, as normas, se tornam, então, um problema, um
risco, uma ameaça a “ordem” natural das coisas.
Bom, se for homem, melhor! Se for branco, deve ser heterossexual
e de preferencia cristão! Tudo que foge a esse padrão, a esse modelo, não é
nada a não ser algo menor, algo inferior a essa personificação do ser humano
ideal.
Pensem, então, o quão perturbador pode ser um menino homem, um varão, um
reprodutor pensar em depilar suas pernas, em furar as orelhas, em passar um
batom, em fazer as unhas. Como pode um homem pensar em usar saias, em cultivar
em si um corpo feminino? Como pode o homem nascer com o poder do falo (do
pênis) e se quer conceber a ideia de trocar seu sexo por intermédio de um
procedimento cirúrgico? Pensem agora, por outro lado, uma mulher raspar sua
cabeça, deixar de depilar seu corpo, vestir-se e mover-se como um homem? Ah, mas
quanta prepotência! Quanta arrogância! Vocês sabem o que é isso? Falta de pica!
Por mais absurdo que essas colocações possam soar aos ouvidos de alguns, essa
ideia, esse posicionamento - frente tudo
o que representa uma diversidade que extrapola e vai além dos modelos
hegemônicos - pode e vai causar reações de estranhamento. Vivemos politicas que
nos guiam a essas reações e a grande questão é que essas posturas de
estranhamento vão desde um nariz a entortar até o evento que ocorreu essa
semana: um rapaz gay, na região da Augusta, foi assaltado por sete pessoas.
Levaram seu celular, alguns trocados e um tênis All Star. Também o espancaram
até a morte e, não, a polícia não vê relação com homofobia. Eu atribuo esse
assalto e esse assassinato ao fato dessa pessoa desviar da ordem criada e
imposta por um regime ditatorial do, literalmente, “Ser” humano.
As questões ligadas à sexualidade e gênero são impossíveis de serem desconectadas,
fazer isso é um erro. Veja bem, o principio cartesiano de separalidade nos diz
que para estudar um fenômeno, ou resolver um problema, é preciso decompô-lo em
elementos simples. A questão é que a separalidade é extremamente limitada, uma
analise simples sobre qualquer coisa é uma injustiça e um desrespeito às
relações de complexidades e interdependências que possuem. Em uma escala de
complexidade mais justa ainda, sexualidade e gênero acabam que sendo, ainda que
consideremos um estudo composto, separados de tantos outros fenômenos
socioculturais e ambientais, que por sua vez, acabam interferindo na produção
de estudos e analises mais justas com a realidade.
Não poderia deixar de trazer todas essas discussões antes de
entrar no eixo temático principal desse post. É Impossível tratar sexualidade
sem considerar algumas coisas, mais impossível ainda seria tentar simplificar,
ou minimizar, a complexidade da transsexualidade. Hoje, dia 29 de
Janeiro é o dia dedicado a atenção a esse grupo tão marginalizado. Nesse mesmo
dia, em 2004,
ativistas transexuais participaram, no Congresso Nacional, do lançamento da
primeira campanha contra a transfobia no país. A campanha “Travesti e Respeito”, do Departamento DST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde, foi a primeira campanha
nacional idealizada e pensada por ativistas transexuais para promoção do
respeito e da cidadania. O Dia da Visibilidade Trans tem o objetivo de
ressaltar a importância da diversidade e respeito para o Movimento Trans,
representado por travestis, transexuais e transgêneros. É o dia de nos
olharmos, ultrapassarmos as barreiras sociais e culturais que tentam, a todo
custo, gerar esse apartheid da sexualidade. Um dia de entendermos a que essa
marginalização empurra, que nem toda pessoa trans é feminina, que nem toda pessoa
trans é gay, e que o masculino e o feminino não passam de estereótipos
estabelecidos por preconceitos milenares.
Dar visibilidade ao fato de que toda essa marginalização coloca, então, esse
grupo em condição de vulnerabilidade e fragilidades sociais e nos coloca a
cerca da discussão da autonomia de nossos corpos, dos direitos de escolhas que
temos sobre nós mesmos.
Dentro desse regime heteronormativo em que vivemos, podemos problematizar que
liberdade possuímos e quais são nossos poderes de escolhas. E, ainda sim, como
teremos certeza que essas escolhas serão respeitadas? No mundo, existe lugar
para dois tipos de pessoas: o homem e a mulher. As divisões sociais de trabalho
são explicitas e essa discussão faz parte desse contexto, já que falamos aqui, são
de mulheres e homens que não questionam somente esses papeis sociais impostos,
como questionam também o direito de transitar entre os gêneros, são ações, atos
revolucionários contra os processos invisíveis que comandam e regulam uma ordem
social sexual que é perversa a qualquer um que não se encaixe nos moldes
preestabelecidos.

Somos tão acostumados a viver tentando se encaixar ,ou sendo
forçados a tentar, nos moldes binários (H X M) que, mesmo na tentativa de nos
livrarmos de alguns deles, acabamos tentando nos encaixar em outros modelos, o
que pode ser, então, outro processo tão violento quanto! Vide a trânsfobia
dentro dos movimentos sociais LGBTS, que se sabe e há muito já é discutido,
possui uma liderança quase que hegemônica de homens, brancos e cisgêneros, o
que coloca em xeque toda discussão e legitimação de um grupo que busca, e luta,
para ser respeitado, mas reproduz, em larga escala, o mesmo tipo de violência.
Precisamos decidir se o que buscamos é uma série de lutas ou uma luta plural! Precisamos
trabalhar com o fato e a questão de que a sexualidade, assim como tudo no
universo, é um eterno processo de transformação, que é minucioso, sutil e
inacabado.
As discussões que surgem em torno da questão da pessoa Trâns,
no Brasil e no Mundo, é infinita, considerando sua complexidade, que é
diferente, mas também nem mais, nem menos complexa do que a sexualidade de uma
pessoa Cisgênero.
Devemos então nos atentar a algumas condições especificas, aos direcionamentos
políticos dos grupos ativistas. Que olhar damos a esses homens e mulheres que são
empurrados a marginalidade e, por vezes, até a criminalidade, por questões de
puro preconceito? Há condições de riscos nas ruas, nas pistas e praças do pais
inteiro! Há exclusão no mercado de trabalho, nas relações sociais, conjugais.
Há violência do estado sobre nossos corpos, as correntes invisíveis de um
sistema que não só prende, como corta, causa feridas profundas, que deixam
marcas, cicatrizes!
Esse post tem como intuito uma pequena alusão ao tema que terá, a partir de
agora, nesse espaço de comunicação e articulação, a atenção e o olhar sensível
e justo que merece. E para encerrar em uma perspectiva de alteridade, gostaria
de dizer que me reconheço mulher, homem,
menino, menina, transsexual, gay, lésbica e me permito transitar e seguir a
corrente para onde minha orientação aponte, entendendo, principalmente, que o
vento sopra em varias direções e que, por vezes, levará outras pessoas a outras
direções, a outros orientes. Que cada ser humano é único e que, se para uma
analise estatística, alguém às vezes é representado quantativamente em um grupo
de minoria, para esse individuo o mesmo é seu único universo. Então, se, para
um grupo, alguém é 5%, para esse alguém ele é tudo, é então 100%. Que por mais
difícil seja buscar uma realidade onde os moldes sejam feitos de maneira a
caber todas as pessoas, esse é nosso único caminho dentro de uma perspectiva de
justiça, de igualdade e que essa deve ser nossa luta. Por fim, assumo que é
assim que escolho viver, afinal de contas, todxs somos!
Caio Martinez de Almeida, nascido em 29 de Janeiro de 1987
Geógrafo – Educador Socioambiental.
E
para encerrar, Claudia Wonder. Visibilidade pesada!